Solidariedade

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Foto: Blog "tododiaumtextonovo"

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Mulher dá à luz na calçada em pleno Dia Mundial da Saúde

Deodato Alcântara, do A TARDE
Na calçada da Praia de Ondina, sob um sol incandescente, a guardadora de carros Lucicleide da Anunciação Bispo deu à luz um menino prematuro, de cerca de um quilo. Aos 32 anos, quatro partos – o segundo na rua –, ela nunca fez um exame pré-natal. Nesta terça, dia 07, no Dia Mundial da Saúde, Lucicleide começou a sentir dores na barriga ao acordar no barraco improvisado na orla marítima. Recebeu massagens de uma colega e pensou que voltaria logo à rotina de vigiar veículos nas imediações do abrigo.

Às 13 horas, as dores aumentaram. Ela e o companheiro, conhecido como Bozó, tentaram pegar um ônibus para ir a um hospital. Penalizada, uma senhora se prontificou a pagar um táxi, mas o primeiro motorista que parou recusou-se a levar o casal, provocando reação dos moradores de rua, que passaram a jogar pedras nos veículos. A guardadora não resistiu e jogou-se no chão, enquanto o fisioterapeuta do Instituto de Reabilitação da Bahia (IBR) Jorge Veiga correu para pedir ajuda.

O encontro entre Lucicleide e a fisiatra e ortopedista Lícia Ferreira Carneiro, 31 anos, uniu duas mulheres grávidas, que vivem em mundos diferentes na mesma Salvador. A médica, que faz tratamento para que não haja antecipação do nascimento de seu filho, fez um parto pela primeira vez em seus oito anos de profissão. A situação era a pior possível: sem luvas, equipamentos e diante de dezena de curiosos, ela amparou o bebê ainda sem nome, que nos primeiros momentos começou a enfrentar dificuldades tão grandes como as que seus pais encaram há décadas.

O menino nasceu sem pulsação e com cianose (com a pele roxa por causa da ausência de oxigênio). Ao contrário da maioria dos nascimentos, saiu primeiro com os pés, talvez por temer não encontrar mãos para ampará-lo. Mas Lícia estava ali para fazer massagem cardíaca. A médica lembra que foi a terceira vez que reanimou uma criança em sua carreira – uma delas morreu dias depois.

Ainda sobre o parto, a fisiatra diz que o menino estava muito frio, mas não chorou. Enrolado numa toalha, ele foi acomodado numa ambulância da Aeronáutica. Quando os militares iam dar a partida, surgiu uma equipe da Samu. Só aí o cordão umbilical foi cortado. A mãe e o bebê foram levados para a a UTI Neonatal da Maternidade José Maria de Magalhães, no Pau Miúdo.

Lícia ficou em Ondina. Recebeu agradecimentos de moradores de rua e foi apelidada de “parteira” por colegas. Ela disse que esta foi uma experiência única:

– Fiquei apreensiva. O bebê correu risco de morte por não ter todo apoio que precisava – disse.

Filhos – Lucicleide, segundo seus amigos, tem mais três filhos. Um deles também nasceu na rua, na Barra, e é criado pela avó paterna em Fazenda Coutos.

http://www.atarde.com.br/cidades/noticia.jsf?id=1119247

Um comentário:

  1. Pena, a criança morreu depois de mais de 20 dias. Toda uma história de moradora de rua, que pouco se importa com os filhos que por aí vai deixando, inclusive nem sabe o nome do mais novo, que mora com a mãe. Já vi amizade maior duas vezes entre quatro cadelinhas, mães e filhas, que tive e tenho.
    Uma ação nobre de uma profissional de saúde, que arriscou-se a pegar AIDS, hepatite etc, pois nem luvas tinha, vai com o vento da maternidade irresponsável.

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